Gualtar sur la Seine

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  • No dia 28 de Fevereiro chego à Lumière vindo de Itália, fecho as malas e parto para a casa nova. Estou estourado, sem energia. A reacção quando me mudo é de um choro que me faz soluçar em seco. Em 48 horas sou exposto a vários abalos telúricos: saem todos os meus companheiros de casa, e trocámos um adeus que pretende ser um até já, embora saibamos sempre que o mais provável é que se firme a primeira opção para sempre; despeço-me da Ana, que a verei brevemente, e embora isso me faça feliz, a força do não-estar é um pouco mais forte; despeço-me do sono, que já não conheço porque dormir no aeroporto é algo que a minha mente não acede a experimentar; despeço-me de um modo de vida, de um mês, para dizer olá a um novo, diferente. A razão da espécie humana dita-me a espera. A emoção combate-a sistematicamente. O dia de 1 de Março dura uma eternidade, como as 24 horas anteriores. Espero que comecem as aulas para que possa reafirmar rotinas, abanar a cabeça e dizer que isto foi simplesmente cansaço a mais.

    E foi. A razão humana, essa maestra dos cautelosos…se a princípio é simples, pensa-se devagarinho, depois vemos que não é tão mau que os dias em diante sejam os primeiros do resto das nossas vidas. Novo bairro, nova vida. Aqui mascaro-me de estudante que acorda às 6h e chega às 19h, como se estivesse a demonstrar que mereço estar aqui. De minha casa até ao Arco do Triunfo são 30 minutos e até ao Trocadéro são uns 10. Posso continuar com este sentimento de espião encantado e crente de que está camuflado. Em Paris, todos os homens são pardos.

    • 2 months ago
  • Ferrara é um presentinho do mundo de hoje. Anda-se de bicicleta, as caras são reconhecíveis nos vários sítios, há uns monumentos que compõem uma estética milenar e que dá algum sentido aos transeuntes e depois há os sorrisos, os abraços, a confraternização entre pessoas que fazem um esforço para se entenderem. Como é que uma cidade tão pequena me ensinou tanto? Aqui tentei cavalgar pelos caminhos do italiano com amizade e vontade; em terras francas tento ser um monge habilidoso para conjugar verbos e acertar nos acentos. Essas verdadeiras variações da fala encorajam-me. Irei voltar a Paris ciente de que il est en mon pouvoir de parler plus. 

    Sincero obrigado a essa gente que faz da boa-disposição um modo de vida. E à Ana, que reitera o verbo ser em cada beijo trocado.

    • 2 months ago
  • Mais uns quantos pormenores sobre Bolonha, e deixarei aqui o realce para a brilhante ideia de uma livraria ter um placard para que os leitores deixem comentários e sugestões uns aos outros.

    • 2 months ago
  • Vou para Malesherbes sempre bem cedo. Cumprimento o Dumas père e entro num dos pólos da Sorbonne, asseado como o resto da cidade.

    Source: murodemerlim
    • 2 months ago
    • 1 notes
  • A Faculdade de Farmácia é imponente. Mas o Instituto de Arte e Arqueologia, naquele vermelho que contrasta brilhantemente com o resto, é uma alegria no meu rosto, que sorri com todas as rugas, cavaleiro muçulmano que chega a um forte lá no longe do Al-Andalus e chama-lhe casa.

    Source: murodemerlim
    • 2 months ago
    • 2 notes
  • Fui a Bolonha com muita pressa de amar, ainda sabendo que é um processo que requer o seu tempo, é como o vinho, há que o deixar amadurecer, revigorar o aroma. Entranhei mas logo depois estranhei.

    Bolonha vestiu o seu melhor manto branco à luz de um sol que me relembrou o meu país. Fazia algum frio, pronto combatido pelos buongiornos cantados e pelas conversas com tiques de mãos que denunciam uma expressividade calorosa e vivaz.

    A cidade é bem mais pequena do que Paris. Mas o choque são as pessoas, os pormenores, e até a pizza, das melhores que comi até hoje.

    Source: murodemerlim
    • 2 months ago
    • 2 notes
  • (Acordo com baba no beiço, e tenho uma italiana a tentar tirar uma foto pela estreitíssima janela do avião; porque não fazer conversa? Estou cansado, os motores roncam, e a nosso inglês não é inglês)

    Como a beleza natural aproxima corações e dialectos, que são da ternura, e aí nos apercebemos que a nossa comunicação enviesou, isto é, foi pelo caminho que plastifica cumprimentos e saudações. Nos Alpes, somos um prolongamento do inconsciente admirado, surpreso, e caia ou não neve, basta-nos um vislumbre para perceber a nossa efemeridade, quanto de floco temos e chegam as nuvens e regressamos ao assento, nuca presa ao peso da pressão, olhos que se fecham por um inevitável cansaço e um bocejo que confirma tudo isto.

    Source: murodemerlim
    • 2 months ago
    • 1 notes
  • Jardim do Luxemburgo, revisitado. É uma passagem obrigatória às segundas e quintas. E sabe muito bem, em dias de meio-sol, em fins-de-tarde em que grandes pássaros descem das árvores e as estátuas se preparam e ajeitam desde o tempo de Maria de Médicis.

    • 2 months ago
  • Quis o André dar-me um abraço, beber uma cerveja, dar-me o jornal e trocar ideias sobre a esfera dos negócios, e passado algum tempo percebo que sou um gajo com corpo, alma e espírito em Paris a tentar ter a cabeça em Braga, durante a conversa. Andamos rápido, ao ritmo dele. Despedimo-nos em Châtelet, dá-me “A Bola” para saber das notícias do Glorioso, ando até o Pompidou com “L’Opinion Publique” e um café porque faz frio. Durante duas horas, no entanto, estive no calor familiar de que já tinha saudades.

    • 2 months ago
  • Street Art. Art de rue. Arte de rua. Isto também é Paris, minha gente!

    • 2 months ago
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